segunda-feira, 22 de outubro de 2007

Eléctricos e metros


Sonhei hoje que o homem da minha vida conduzia um eléctrico da Carris no Porto. Lembro-me perfeitamente da figura dele, nada o meu género e muito mais velho do que esperava, entre os 30 e 40 anos. Um típico português, de faces morenas, sobrancelhas cheias e cabelo escuro. Lembro-me de pensar " Bem, se é este, não tenho remédio, há que aprender a gostar com o tempo". Dizia-me que me ia levar aos bares mais in da cidade. E eu esperava, em pé, ao lado da porta da entrada, como um passageiro que não sabe o caminho e pede orientação. E pergunto-me, a que bares me levaria um condutor da Carris... e porque será que fui juntar estas coisas num sonho?


A viagem mais estranha da minha vida teve lugar em Berlim. Para quem conhece esta cidade, sabe perfeitamente que é o lugar dos estranhos (e quem sou eu para dizer que alguém é estranho? - já entrei num bar com amigos, vi gente a dormir em sofás com cães e a dona olhou para nós como se fôssemos de outro planeta. Afinal de contas, não nos adequávamos perfeitamente ao sítio, que era o único aberto aquela hora). Berlim é a cidade onde se encontra todos os tipos de identidades, e por isso vejo-a como o sítio perfeito para evoluir, para conhecermos outros tipos de visões, ideias, formas, vontades, piercings, tatuagens e até novas cores de cabelo.

A "minha" viagem foi ao fim da tarde, já na hora de toda a gente voltar para casa, mas o metro encontrava-se ainda assim relativamente vazio. Uma rapariga chinesa estava sentada à minha frente, e notava-se que tinha o estilo asiático também representado na sua forma de estar - sentava-se de costas direitas, mãos a proteger a mochila no colo, distraída à espera da estação certa. Entra um senhor que parece conhecê-la. Senta-se a um metro dela, e olha-a de forma peculiar - tinha um olhar esperançoso, pleno de vontade, e só faltava mesmo falar com ela, para eu comprovar a minha curiosidade e descobrir se finalmente se conhecem. Mas ela ignora-o, não olha nunca para ele, não olha nunca para ninguém, não conhece nenhum dos que a rodeiam. E ele olha-a - está mesmo sentado virado para ela, e só de vez em quando deixa de o fazer para se dedicar a ler uma revistinha sem imagens que tem na mão. Parece tentar decorar o que lê - sussurra imenso, como se falasse com alguém. Olha de novo para a adolescente chinesa e sussurra aparentemente para ela. Porque não responde? Estará chateada? Como se conhecem?, pergunto eu ao som da música nos meus headphones que afastam o som do movimento do metro. Naquele metro, agora o de distância entre os dois, senta-se uma rapariga que acaba de entrar. Está exactamente à minha frente e faz-me lembrar uma Lolita dos tempos modernos. Vestida de forma inocente, mas talvez provocante, tem uma argola no lábio inferior. Olha para mim fixamente, talvez pela cor laranja do meu casaco, (ou será que me assemelho a um Mr. Humbert ?), mas chega a incomodar-me e viro a cara para longe. Quando volto a observar o que se passa, o senhor conversava agora direccionado para esta, que continuava a olhar para mim, evitando dar atenção ao que ouvia pelo ouvido esquerdo. E ele continuava a olhá-la esperançado - uns olhos azuis brilhantes e um sorriso como se o destino que o espera fosse o paraíso, ele sendo como o único detentor do segredo. A minha insensibilidade trouxe-me a vontade de rir - e penso agora, mas quem sou eu para rir?, sou mais uma e tenho as minhas próprias manias - e tentava olhar ou para a rapariga, que ouvia e ouvia o sussurro do senhor, ou para longe, tentando concentrar-me em coisas sérias para manter a aparência da distracção. Para interromper o meu interesse no senhor, passa entre nós um homem completamente bêbedo. Veste-se de tropa, leva numa mão a cerveja e na outra uma lata com que pede dinheiro. Ao peito leva um quadrozinho que diz "Alles ist verloren" - "Tudo está perdido", e cambaleando resmunga em alemão "Um cêntimo...Só um cêntimo!". A timidez da minha insensibilidade rebenta no momento em que o vemos já de costas e partilho as gargalhadas escondidas com a Lolita. Como ironia depois de escrever esta história, agora que penso no que vi, não é tão estranho. Contei a viagem a uma amiga de Berlim e também não ficou nada surpreendida. Afinal, é Berlim.

3 comentários:

Pedro disse...

so pa ser o primeiro =)

fófis disse...

ta tudo mto bonito... sim sra...
mas n resisto a fxer uma correção... a carris é em lisboa... no porto são os stcp... (kd a bela ler isto vai-m espancar... ai)
só msm num sonho é k t podias apaixonar por um condutor da carris no porto...
bxitux d saudadinha directament do nosso kartinho******

Rogério disse...

e se deixasses a droga ?? ;p

(like they way/things you write. will pass by often)

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